Vosso Pai vê o que está oculto!

A Igreja nos propõe de começar este santo tempo da Quaresma com um jejum. Esta prática de raízes bíblicas e presente nos Evangelhos – o próprio Jesus jejuou – é para nós, cristãos, um sinal sensível, visível, do que vem a ser este tempo forte que começamos hoje em preparação à Páscoa, festa principal de nossa Fé.

A Quaresma não é somente um "tempo de conversão", pois, na verdade, a vida cristã inteira é um tempo de conversão. A Quaresma é um tempo propício para pararmos um pouco e olhar mais de perto como vai nosso caminho de conversão; é um tempo de "fazer a revisão" de nossa vida e ver como anda nosso compromisso de cristãos.

O jejum é uma maneira de "chamar a atenção" de nosso coração através da privação de algo vital para nós que é o alimento. A realização deste ato deve nos lembrar que nossa vida cristã e a conversão que ela pede de nós, é algo mais importante do que nosso próprio alimento, seguindo aquilo que Jesus mesmo dizia: "Meu alimento é fazer a vontade do Pai".

Sim, para o cristão, a vontade do Pai é mais importante do que o alimento físico. Por esta razão os cristãos jejuam hoje, para lembrar que suas vidas são iluminadas e regidas pelo Evangelho de Jesus Cristo.

Jesus nos convida a fazer esta revisão de nossa vida cristã em três aspectos: em nossa relação com Deus (oração), em nossa relação conosco mesmos (jejum) e em nossa relação com os outros (esmola).

A oração é o sinal visível de nossa relação com Deus: nós falamos e damos atenção a quem amamos. Jesus nos indica que esta oração deve fazer parte da intimidade de nosso coração, isto é, devemos vive-la não somente em momentos pontuais de nosso dia, mas constantemente, tendo o coração o tempo todo voltado para Deus e unido a Ele, vendo, através dos olhos da fé, a ação e a presença de Deus no mundo que nos cerca.

A relação que temos conosco mesmos é expressa pelo jejum, ou seja, pela privação. O jejum do alimento é um símbolo concreto de tantos outros jejuns que devemos viver, da privação de tantas coisas que podem nos escravizar, que podem se tornar "vitais" para nós, como um alimento, mas que na verdade nos afastam de Deus e do perfeito cumprimento do Evangelho.

A esmola é o sinal de nossa relação com os outros. Esmola significa DOM, e doar-se a si mesmo, por amor, sem segundas intenções, sem "ser visto", ser louvado e buscando o reconhecimento dos olhos alheios, é a esmola perfeita, pois é a esmola que é conhecida somente do Pai "que vê o que está oculto".

Aproveitemos, portanto, este tempo de Quaresma para olharmos estes três aspectos de nossa vida e peçamos a Deus, através do jejum de hoje, coragem e forças para mudar o que precisa ser mudado em nossas vidas.

Ao nos sentirmos "fracos" pela ausência de alimentos, ao passarmos um pouco de fome poderemos nos lembrar que só Deus é nossa força e nosso verdadeiro alimento. Além disso, poderemos comungar — um pouquinho — com MILHÕES de pessoas no mundo que têm por "refeição" quotidiana a Fome... que este tempo de jejum dá Quaresma seja também um tempo de purificação de nosso espírito consumista, sobretudo em matéria de alimentação, para economizarmos um pouco de dinheiro e podermos ajudar pessoas que não têm o necessário para a subsistência.

Deus conceda a todos nós uma santa Quaresma!

Quarta-feira de Cinzas — Ano A

Leituras: Jl 2,12-18; Mt 6, 1-6. 16-18.

"VIVER É CRISTO"

Ir. Bonifácio OSB