Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens

A palavra Tradição é um conceito extremamente mal compreendido em nossos dias e que muitas vezes sofre grande preconceito. A vida cristã é TOTALMENTE FUNDAMENTADA NA TRADIÇÃO RECEBIDA DOS APÓSTOLOS, ou seja, na experiência de vida que os Apóstolos tiveram com Jesus e que eles nos transmitiram.
Aquilo que os Apóstolos viveram junto de Jesus, o que ouviram Dele, o que O viram praticar e pregar, tudo isto eles transmitiram à Igreja de geração em geração, de maneira escrita, nas Escrituras, e de maneira oral. Esta Tradição Apostólica, constituída da Tradição oral e das Escrituras, é o fundamento de nossa Fé e de nossa vida cristã. Neste sentido, TODOS OS CRISTÃOS SÃO TRADICIONAIS pois são enraizados na Fé recebida da Tradição dos Apóstolos.
No entanto, durante a história da Igreja, muitos costumes foram sendo criados de acordo com as necessidades do tempo e da cultura local, para melhor viver esta Tradição recebida dos Apóstolos. Estes costumes estão ligados às observâncias do agir cristão em determinadas épocas, às práticas dos ritos e costumes litúrgicos, etc.
Tais costumes não são determinantes da Fé e podem – e muitas vezes devem – ser adaptados, extinguidos ou mudados. O conjunto de tais observâncias é muitas vezes considerado como "tradição" devido a sua antiguidade.
Muita gente confunde a Tradição Apostólica com as "tradições" adquiridas com o tempo e segundo as necessidades históricas. O que Jesus condena aos fariseus no Evangelho de hoje é justamente essa incapacidade de saber discernir o que é essencial, ou seja, a verdadeira Tradição fundamentada na Palavra de Deus, do que é "acessório", ou seja, as tradições religiosas dos homens, sujeitas a mudanças e adaptações.
Nós corremos o risco de nos apegar a certas tradições que não são essenciais e dar a elas uma importância exagerada. Nenhuma observância externa deve se tornar mais importante do que a prática do amor e a vivência do Evangelho.
Em nossas comunidades podemos correr o risco de ficar apegados às coisas que "sempre foram feitas assim", apegados a tradições locais, de uma época, que funcionou durante algum tempo, mas que agora já não podem mais subsistir.
Quando vivemos nesta perspectiva em nossas comunidades eclesiais, corremos o risco de viver em uma "pastoral de conservação" que nos impede de ousar e de sair de si para superar novos desafios e nos abrirmos para novas realidades.
Encontrar a maneira de viver com fidelidade a Tradição Apostólica na realidade histórica e na cultura em que se vive é tarefa da Igreja e de Seu Magistério; portanto ninguém tem o direito de querer criar inovações sob o pretexto de adaptar-se à modernidade, sobretudo criando formas de celebrar a liturgia ou de viver a moralidade da vida cristã.
O discernimento espiritual é de suma importância: devemos observar e guardar tudo aquilo que a Tradição Apostólica nos transmitiu a respeito da Fé, da Moral e da Liturgia e deixar-se guiar pela Igreja para se adaptar e mudar tudo aquilo que, embora sendo uma prática antiga, já não serve mais para a realidade de hoje.
Terça-feira da 5ª semana do Tempo Comum — Ano A
Leituras: 1Rs 8,22-23.27-30; Mc 7, 1-13.
"VIVER É CRISTO"
Ir. Bonifácio OSB
