Um de vós vai Me trair...

A adesão de Fé a Cristo e a perseverança final na Fé são dons de Deus; por nós mesmos não somos capazes nem de crer nem de ser fiéis.

No entanto este dom de Deus pede a cooperação de nossa vontade, de nosso livre arbítrio: Deus dá o dom e quer que nós respondamos livremente a este dom através de nosso esforço humano – auxiliado pela graça – para permanecermos fiéis e perseverarmos.

O Evangelho de hoje mais uma vez coloca diante de nós a figura emblemática de Judas. Não sabemos com certeza o que levou Judas a trair o Mestre; a única coisa que sabemos é que ele agiu livremente.

No gesto de Judas vemos o entrelaçamento dos desígnios de Deus e do livre agir humano: ao negar livremente o Mestre e traí-Lo Judas executava uma ação necessária para que o plano de salvação se realizasse.

Judas não foi "predestinado" a ser o traidor; no entanto, de seu pecado Deus fez resultar a realização de seu plano de amor.

Isto mostra que nada pode frustrar os planos de Deus; todo o mal que há no mundo não pode impedir Deus de realizar seus planos, ao contrário, assim como aconteceu com Judas, Deus faz resultar em um bem maior todo gesto de maldade livremente praticado pelos homens.

Foi assim também que aconteceu com a Cruz de Cristo: de um mal e de um sofrimento horrível que foi a Cruz, Deus fez brilhar a vida nova do ressuscitado, de maneira que a Cruz se tornou para a humanidade a ÚNICA E VERDADEIRA FONTE DE VIDA E SALVAÇÃO.

O mistério do mal só pode esclarecer-se no mistério pascal de Cristo: Deus faz um bem maior resultar de todo mal. Este é um mistério de Deus que nós não podemos compreender, só podemos contemplar na Fé.

A liberdade do homem em praticar o mal nunca poderá destruir os desígnios de amor de Deus. O mal só pode destruir aquele que o pratica e, ainda neste caso, Deus pode servir-se do mal que alguém pratica para leva-lo a um caminho de conversão e salvação, como nos mostra a parábola do filho pródigo.

Tudo isto deve nos inspirar um santo temor de Deus e uma alegre esperança. Temor de Deus porque nenhum de nós está ao abrigo de tornar-se um traidor de Jesus, ninguém tem certeza absoluta de que irá perseverar até o fim nos caminhos de Deus.

Cada um de nós deve perguntar-se, com grande temor, aquilo que os apóstolos perguntaram a Jesus no Evangelho de hoje: "Senhor, será que serei eu a te trair? "

Mas devemos também alegrar-nos na esperança pois nossa única certeza está na misericórdia do Senhor. Nós não nos apoiamos em nós mesmos, mas na força do amor e da fidelidade de Deus que "quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade".

Devemos todos os dias pedir a graça da perseverança e, sobretudo, nunca julgar alguém que hoje é um grande pecador pois não sabemos se amanhã estaremos no lugar dele.

A certeza de nossa vitória é a Cruz de Jesus. Com os olhos fixos na Cruz, imitando a Paixão de Cristo através do dom de nossas vidas, da humildade e da mansidão, podemos ter a esperança de que Cristo nos fará perseverar até o fim no seu santo serviço.

Quarta-feira Santa — Ano A

Leituras: Is 50,4-9a; Mt 26, 14-25.

"VIVER É CRISTO"

Ir. Bonifácio OSB

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