Quaresma: Castigo ou Liberdade?


Muitas vozes se levantam nesta época para dizer que a Igreja Católica é "obcecada pelo sacrifício" ou que o jejum e a abstinência são práticas medievais criadas para controlar os fiéis pelo medo. Há quem diga: "Deus quer o seu coração, não o seu estômago vazio!".

À primeira vista, parece um argumento espiritual profundo, não é? Mas a verdade é que essa crítica separa o que Deus uniu: o corpo e a alma. Nós não somos anjos, somos seres humanos. O que fazemos com o corpo reverbera no espírito. A Igreja, como mãe pedagoga, não nos pede privações para "sofrermos", mas para nos desinstalar do egoísmo e abrir espaço para a graça.

O Jejum: O Treino da Vontade

O jejum é frequentemente confundido com uma dieta religiosa, mas seu propósito é muito maior. De acordo com o Catecismo da Igreja Católica (CIC §2043), o jejum é um dos preceitos da Igreja que assegura que com isso nós vamos "adquirir domínio sobre os nossos instintos e a liberdade do coração".

De forma objetiva: o jejum consiste na redução da quantidade de alimento. A regra da Igreja para os dias de jejum (Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa) é que o fiel faça apenas uma refeição completa, podendo fazer outras duas pequenas refeições que, somadas, não equivalham a uma refeição completa.

A fundamentação bíblica é clara. O próprio Jesus jejuou quarenta dias antes de iniciar sua missão (Mateus 4, 2). Ele não o fez porque precisava ser "punido", mas para mostrar que "nem só de pão vive o homem". Quando jejuamos, dizemos ao nosso corpo que quem manda na nossa vida é o Espírito Santo, e não o nosso apetite.

A Abstinência: O Sacrifício do "Bom" pelo "Ótimo"

Já a abstinência é o ato de se privar de um tipo específico de alimento — tradicionalmente a carne de animais de sangue quente. Aqui entra outra crítica comum: "O que entra na boca não contamina o homem!".

É verdade, a carne não é impura. Pelo contrário, ela é boa! E é exatamente por ser boa que a oferecemos a Deus. Segundo o Código de Direito Canônico (Cân. 1251), a abstinência de carne deve ser observada em todas as sextas-feiras do ano, a menos que coincida com uma solenidade. No Brasil, a CNBB permite substituir a abstinência de carne por outras obras de caridade ou piedade, exceto na Sexta-feira Santa.

O objetivo da abstinência não é demonizar o alimento, mas recordar o sacrifício de Cristo na Cruz. Ao abrir mão de algo lícito e prazeroso, treinamos nossa alma para dizer "não" ao pecado quando ele bater à nossa porta de forma atraente.

Cuidado com as Falsas Doutrinas

Neste tempo, é comum vermos "gurus" de novas religiões ou movimentos espiritualistas sugerindo jejuns para "limpeza energética" ou "manifestação de desejos". Cuidado!

O jejum católico é Cristocêntrico. Ele não é uma técnica de bem-estar ou uma moeda de troca com o divino. Qualquer doutrina que prega o sacrifício como forma de "comprar" o favor de Deus ou como purificação meramente física é estranha à fé apostólica. Nós jejuamos porque somos amados, não para sermos amados.

Viver a Quaresma com jejum e abstinência não é carregar um fardo pesado, mas vestir a armadura para a batalha espiritual. É um exercício de liberdade. Quando você domina o seu desejo por um bife ou por uma refeição extra, você se torna mais forte para dominar a sua língua, a sua ira e o seu egoísmo.

Que esta Quaresma não seja apenas de "estômago vazio", mas de alma cheia de Deus.

Maria Regina Caeli intercedenti


Marco Antonio Alencar

Nascido em 1984, natural do Rio de Janeiro/RJ, casado, pai de 2 filhas, advogado, Pós-Graduado em Direito e Processo do Trabalho, desde de 1997 participando ativamente da Igreja, em movimentos da Juventude Católica na 2ª Forania e 6ª Forania do Vicariato Leopoldina (Arquidiocese do Rio de Janeiro). Atualmente atua como Catequistas da Iniciação Cristã para adultos e como especialista em Direito Matrimonial Canônico.