O Efeito e a Graça do Sacramento do Matrimônio

O Código de Direito Canônico que orienta as leis da Igreja diz no cânon 1134:

Do Matrimônio válido origina-se entre os cônjuges um vínculo de sua natureza perpétuo e exclusivo: no matrimónio cristão, além disso, são os cônjuges robustecidos e como que consagrados por um sacramento peculiar para os deveres e dignidade do seu estado.

Jesus, ao elevar o Matrimônio a um Sacramento dá a aqueles que o recebem uma consagração que une duas pessoas em um vínculo de deveres e dignidade próprias ao estado de vida assumido. E este vínculo realizado entre batizados, ratificado e consumado se torna uma realidade irrevogável.

E é Cristo a fonte desta graça, para fortalecer os cônjuges nesta aliança de amor e fidelidade. Assim como Cristo é fiel a sua Igreja (esposa), Ele mesmo da as graças necessárias, aos cônjuges para viverem a fidelidade, o amor um ao outro e suportar as fraquezas mútuas, como diz São Paulo aos Gálatas: "Levai os fardos uns dos outros: desta maneira, cumprireis a lei de Cristo" (Gl 6,2).

Como cada um dos sete sacramentos, também o matrimônio é um símbolo real do acontecimento da salvação, mas de um modo próprio.

Os esposos são, portanto, para a Igreja o chamamento permanente daquilo que aconteceu sobre a Cruz; são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação da qual o sacramento os faz participar. Deste acontecimento de salvação, o matrimónio como cada sacramento, é memorial, actualização e profecia. 

(S. João Paulo II – Familiares Consorti .13)

Tertuliano, jurista romano, padre da Igreja já afirmava, entre o século II e III:

"Donde me será dado expor a felicidade do matrimônio unido pela Igreja, confirmado pela oblação eucarística, selado pela bênção, que os anjos anunciam e o Pai ratifica? ... Qual jugo aquele de dois fiéis numa única esperança, numa única observância, numa única servidão! São irmãos e servem conjuntamente sem divisão quanto ao espírito, quanto à carne. Mais, são verdadeiramente dois numa só carne e donde a carne é única, único é o espírito."
(Tertuliano, Ad uxorem, II, VIII, 6-8: CCL).

"Os esposos participam nele enquanto esposos, a dois como casal, a tal ponto que o efeito primeiro e imediato do matrimónio (res et sacramentum) não é a graça sacramental propriamente, mas o vínculo conjugal cristão, uma comunhão a dois tipicamente cristã porque representa o mistério da Encarnação de Cristo e o seu Mistério de Aliança. E o conteúdo da participação na vida de Cristo é também específico: o amor conjugal comporta uma totalidade na qual entram todos os componentes da pessoa - chamada do corpo e do instinto, força do sentimento e da afetividade, aspiração do espírito e da vontade - ; o amor conjugal dirige-se a uma unidade profundamente pessoal, aquela que, para além da união numa só carne, não conduz senão a um só coração e a uma só alma; ele exige a indissolubilidade e a fidelidade da doação recíproca definitiva e abre-se à fecundidade." (S. Paulo VI – Humanae Vitae. 9)

Cristo, renova pelo sacramento aquela união desejada na criação, entre o homem e a mulher e dá um novo coração para como testemunhas fiéis, superar toda dureza do coração humano para o SIM de cada dia.

Fidelidade do Amor Conjugal

A fidelidade do amor conjugal, não tem outro motivo mais profundo que não seja a fidelidade de Deus e a sua aliança e como Cristo assim o fez: "Maridos, amai as vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo." (Ef 5, 25). Esta fidelidade exige de ambos uma entrega que muitas vezes parece impossível ao ser humano e onde entra a ação da graça, como afirma o Catecismo:

Pode parecer difícil, e até impossível, ligar-se por toda a vida a um ser humano. Por isso mesmo, é da maior importância anunciar a boa-nova de que Deus nos ama com um amor definitivo e irrevogável, de que os esposos participam neste amor que os conduz e sustém e de que, pela sua fidelidade, podem ser testemunhas do amor fiel de Deus. Os esposos que, com a graça de Deus, dão este testemunho, muitas vezes em condições bem difíceis, merecem a gratidão e o amparo da comunidade eclesial. (CIC 1648)

A Igreja Doméstica

Família, torna-te aquilo que és! (São João Paulo II)

Deus, em seu plano de redenção quis se fazer homem, no ventre de uma Virgem e nasceu e cresceu no seio da Sagrada Família de Nazaré. E ali viveu ocultamente por 30 anos, até sua manifestação pública. E este é o grande exemplo para todas as famílias cristãs, pelo amor entre pais e filhos, pelo trabalho cotidiano e o vínculo e laços que a família exige, pela formação do caráter das crianças... este é o papel Igreja Doméstica.

Quando lemos o Atos dos apóstolos a conversão dos primeiros cristãos, vemos sempre "creram com toda sua família" (At 11,14; 16,31; 18,8). A Igreja é a Família de Deus e o cristianismo se difundiu através das famílias que se convertiam a pregação dos apóstolos.

É no seio da família que os pais são, «pela palavra e pelo exemplo [...], os primeiros arautos da fé para os seus filhos, ao serviço da vocação própria de cada um e muito especialmente da vocação consagrada. É aqui que se exerce, de modo privilegiado, o sacerdócio baptismal do pai de família, da mãe, dos filhos, de todos os membros da família, «na recepção dos sacramentos, na oração e ação de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade efetiva». O lar é, assim, a primeira escola de vida cristã e «uma escola de enriquecimento humano». É aqui que se aprende a tenacidade e a alegria no trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e sempre renovado, e, sobretudo, o culto divino, pela oração e pelo oferecimento da própria vida (CIC 1656-1657)

 É o próprio Senhor, quem sustenta  os efeitos da graça no sacramento, Ele infundi pelas virtudes, a Fé que leva a busca, a Esperança que da sentido a caminhada, e que vale a pena continuar e no final é o Amor que preenche todo aquela busca, toda inquietude do homem e da mulher, que pela fé, se acreditou, pela esperança, perseverou, para chegar na plenitude do amor, que é Deus, como diz o apóstolo; Deus é amor! (Jo 4,8).
Este era o fundamento das primeiras conversões ao cristianismo, as famílias que aderiram a pregação dos apóstolos e recebiam o batismo e muitas destas chegaram a dar a própria vida, no martírio nos primeiros séculos. Hoje, pode ser que Deus, não nos peça o martírio de sangue, como nas primeiras famílias cristãs, mas Ele nos pede a "martíria" de testemunhar, crer, defender... o valor do sacramento, os valores da família, a sermos abertos a vida, como prometemos no altar, a moral e a ética herdada e tudo isso nos levará a sermos ridicularizados, chamados de retrógrados e malucos, diante de uma sociedade que não crê, não espera e não ama mais. Por força humana nem nós mesmos conseguiríamos, são os efeitos da graça que sustentarão a defender o Bem que foi dado ao ser humano de ser família.



Por Luiz Mathias

Nascido em 1980, casado, pai de 3 filhos, natural de Campinas-SP, Gerente de Agência Bancária. Formado em Marketing, MBA em Gestão de Negócios e Pós-graduado em Educação e Ciências da Família. Experiencia de 7 anos na vida franciscana missionária, atuando como missionário no Brasil e no Equador. Onde realizou formações, retiros, pregações e programas de evangelização. Iniciou o Apostolado A Fé Católica em 2013. Atualmente coordenador da Pastoral da Família na Paróquia Santo Antônio na Arquidiocese de Campinas.

Fontes:

[1] Código de Direito Canônico (CDC) – TÍTULO VII – O Matrimônio.

[2] Catecismo da Igreja Católica (CIC) – SEGUNDA PARTE – Artigo 7 – Capítulo 1601 – 1609.

[3] Sagradas Escrituras – Tradução Padre Manuel de Matos Soares, 1956. Editora: Ecclesiae.

[4] Exortação Apostólica Familiaris Consorti 1981. Papa São João Paulo II.

[5] Carta Encíclica Humanae Vitae 1968. Papa São Paulo VI.