O Deserto nos ensina a importância de sermos sóbrios e vigilantes


Muitos críticos da fé católica costumam olhar para o tempo da Quaresma — e especialmente para esta primeira semana que iniciamos — como um exercício de "masoquismo religioso" ou uma culpa institucionalizada que retira a alegria do fiel. O argumento é quase sempre o mesmo: "Por que focar na privação e no deserto, se Cristo já nos libertou?" Falamos sobre isso no último texto. Para o olhar secular, a cinza na testa e a sobriedade nos altares parecem um retrocesso medieval, um peso desnecessário que ignora a "leveza" do amor divino.

No entanto, essa crítica ignora uma realidade antropológica profunda que a Igreja preserva: o coração humano é um campo de batalha. Sem a sobriedade da Quaresma, não somos "leves", somos apenas vulneráveis.

O Convite à Vigilância

Nesta primeira semana, a liturgia nos joga diretamente no deserto com Jesus. O Catecismo da Igreja Católica (CIC), no parágrafo 538, recorda que Jesus é o "novo Adão" que permaneceu fiel onde o primeiro falhou. A Quaresma não é sobre sofrer por sofrer, mas sobre vigilância.

538. Os evangelhos falam dum tempo de solidão que Jesus passou no deserto, imediatamente depois de ter sido batizado por João: «Impelido» pelo Espírito para o deserto, Jesus ali permanece sem comer durante quarenta dias. Vive com os animais selvagens e os anjos servem-n'O.

No fim desse tempo, Satanás tenta-O por três vezes, procurando pôr em causa a sua atitude filial para com Deus; Jesus repele esses ataques, que recapitulam as tentações de Adão no paraíso e de Israel no deserto; e o Diabo afasta-se d'Ele «até determinada altura» (Lc 4, 13).

A Sagrada Escritura é categórica: "Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar" (1 Pedro 5, 8). Iniciar este tempo em vigilância significa reconhecer que nossas inclinações muitas vezes nos levam para longe de Deus. O neo-convertido pode sentir um entusiasmo inicial fervoroso, e o católico de longa data pode cair no automatismo rito; ambos, porém, precisam da sobriedade para não perder o equilíbrio espiritual.

Sobriedade: O Prumo da Vida Cristã

A sobriedade quaresmal não é tristeza, é clareza. Quando a Igreja nos pede jejum, esmola e oração, ela está nos oferecendo ferramentas para reordenar nossos afetos. O amor sem sobriedade vira sentimentalismo barato; a solidariedade sem vigilância vira apenas filantropia para massagear o ego.

O Catecismo (CIC 2516) ensina que o combate espiritual é necessário para "domar as concupiscências", vejamos:

2516. No homem, porque é um ser integrado de espírito e corpo, já existe uma certa tensão. Trava-se nele uma certa luta de tendências entre o «espírito» e a «carne». Mas esta luta, de facto, faz parte da herança do pecado, é uma consequência dele e, ao mesmo tempo, uma sua confirmação. Faz parte da experiência quotidiana do combate espiritual:

«Para o Apóstolo, não se trata de desprezar e condenar o corpo que, com a alma espiritual, constitui a natureza do homem e a sua personalidade de sujeito; pelo contrário, ele fala das obras, ou antes, das disposições estáveis, virtudes e vícios, moralmente boas ou más, que são o fruto da submissão (no primeiro caso) ou, pelo contrário, da resistência (no segundo caso) à acção salvadora do Espírito Santo. É por isso que o Apóstolo escreve: "Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também segundo o espírito" (Gl 5, 25)» (João Paulo II, Enc. Dominum et vivificantem, 55: AAS 78 (1986) 877-878.)

Se não vigiamos o que comemos, o que vemos e como gastamos nosso tempo nestes quarenta dias, dificilmente teremos forças para resistir às doutrinas da moda que prometem um "cristianismo sem cruz". As falsas religiões e as espiritualidades self-service pregam um caminho largo, mas a Igreja nos aponta o deserto, porque é no silêncio do deserto que a voz de Deus se torna audível.

O Equilíbrio entre a Fé e a Ação

Vigiar nesta primeira semana é também um alerta contra as falsas doutrinas que tentam separar a fé da caridade. Não se trata apenas de "não comer carne", mas de permitir que a privação gere em nós um espaço para o outro. A sobriedade nos desinfla para que Deus possa nos preencher.

Se começarmos a Quaresma com o espírito de autossuficiência — achando que somos "fortes o bastante" para não cair — já caímos na primeira tentação: o orgulho. A vigilância nos mantém pequenos e dependentes da Graça. É este o equilíbrio que nos sustenta: a consciência de nossa fraqueza aliada à confiança absoluta na vitória de Cristo.

Portanto, não se deixe enganar por quem diz que a Quaresma é um tempo de sombras. Ela é, na verdade, o tempo de limpar as janelas da alma para que a luz da Páscoa encontre um ambiente límpido. Que nesta primeira semana, a sua sobriedade seja o seu maior grito de liberdade.


Maria Regina Caeli intercedenti

Por Marco Antonio Alencar

Nascido em 1984, natural do Rio de Janeiro-RJ, casado, pai de 2 filhas, advogado, Pós-Graduado em Direito e Processo do Trabalho, desde de 1997 participando ativamente da Igreja, em movimentos da Juventude Católica na 2ª Forania e 6ª Forania do Vicariato Leopoldina (Arquidiocese do Rio de Janeiro). Atualmente atua como Catequistas da Iniciação Cristã para adultos e como especialista em Direito Matrimonial Canônico.