Judas saiu imediatamente; era noite...

Em Judas Iscariotes nós vemos a que ponto chega a misericórdia de Deus e o respeito que Ele tem pelo livre arbítrio do homem. Deus foi infinitamente misericordioso com Judas. Jesus escolheu Judas, amou-o, nunca o mandou embora do grupo de apóstolos apesar de saber que ele roubava o dinheiro da bolsa comum.
Jesus foi amigo fiel de Judas até o último instante, chamando-o de "Amigo" no momento em que ele veio entregar Jesus com um beijo. Além da misericórdia Jesus respeitou imensamente a escolha de Judas, embora tivesse feito tudo para que ele se convertesse e voltasse. Quantas vezes Jesus deveria ter exortado Judas, corrigido com amor, insistido com ele pessoalmente.
Judas é um mistério: o mistério da terrível liberdade do livre arbítrio humano. Portanto Judas é a imagem do grande perigo que temos em nós, da terrível capacidade que temos de rejeitar, livremente, o amor de Deus.
O grande mal de Judas é a "dureza de coração", um verdadeiro câncer espiritual do qual ninguém está imune. Este mal consiste em ir se fechando pouco a pouco a Deus e tornando-se escravo de si próprio, afogando-se no oceano de nosso próprio livre arbítrio.
A dureza de coração é um mal silencioso que cresce pouco a pouco no coração do homem inspirado pelo orgulho. Quem rejeita livremente Deus utiliza o maior bem que tem, que é seu livre arbítrio, para sua própria destruição. É como uma aranha que se enrosca e se prende em sua própria teia.
A ÚNICA MANEIRA DE SE LIVRAR DA DUREZA DE CORAÇÃO É A HUMILDADE. O homem humilde sabe reconhecer quando está errado, sabe humilhar-se e passar por cima da "excelência do próprio EU", sabe abrir mão do próprio parecer de seu livre arbítrio para abandonar-se à vontade de Deus, mudando seu comportamento de acordo com o parecer divino.
Não sabemos ao certo o que levou Judas a trair Jesus; mas certamente Judas não foi capaz de aceitar a maneira pela qual Jesus iria cumprir sua missão messiânica. Judas pensava que as coisas deveriam ser de outro jeito, do seu jeito. Judas não foi capaz de aceitar os planos de Deus como Deus quis realiza-lo.
Esta atitude é muito comum em nossos dias. Quantas pessoas abandonam Deus e negam sua fé porque não veem as coisas acontecerem do jeito que elas querem. Quantas pessoas não são capazes de ter a humildade de aceitar que Deus é maior e mais sábio do que elas e, portanto, age muitas vezes de maneira que nós não podemos compreender.
Pedro, confiando em suas próprias forças, disse que daria sua vida pelo Mestre. Mais tarde, quando cairá, reconhecerá humildemente sua miséria e chorará amargamente pedindo perdão. Esta é a atitude do humilde que tem o coração aberto, sendo assim capaz de reconhecer seu pecado e pedir perdão.
Jesus em sua Paixão é o exemplo perfeito do coração humilde e manso, que se submete livremente à vontade de Deus, utilizando seu livre arbítrio para cumprir com amor aquilo que o Pai lhe pedia, passando por cima de sua vontade humana: "Não se faça segundo minha vontade, mas segundo a Tua vontade ó Pai".
Se soubermos olhar com os olhos da fé para a Cruz de Cristo aprenderemos a não confiar em nós, em nosso parecer, em nossas capacidades e inteligência, para nos abandonar à sabedoria de Deus que se manifesta na Cruz de Cristo.
Nosso livre arbítrio deve ter sempre diante de si a imagem do crucificado que soube tomar a maior e mais suprema decisão que um livre arbítrio pode tomar: tornar-se servo fiel da vontade do Pai, ainda quando não compreendemos bem Sua maneira de agir.
Terça-feira santa — Ano A
Leituras: Is 49,1-6; Jo 13, 21-33.36-38.
"VIVER É CRISTO"
Ir. Bonifácio OSB
