Foi a Mim que o fizestes!

"Foi a Mim que o fizestes"! Jesus imputa a Si mesmo toda ação feita ao próximo, quem quer que seja este próximo: presidiário, estrangeiro, pobre, miserável, doentes no corpo, na alma ou moralmente, excluídos, etc.
Sim, em cada rosto humano brilha o rosto de Cristo, sobretudo se se trata de um rosto humilhado, abatido e sofredor: nestes rostos brilha o rosto do Crucificado, do Servo de Javé. Portanto, as "chagas" do meu próximo – quaisquer que sejam elas – são as chagas do próprio Cristo, pois "Ele tomou sobre Si nossas iniquidades, nossas misérias, nossas chagas".
É muito fácil, agradável e prazeroso ver o rosto de Cristo no rosto de pessoas "santas", de pessoas boas, que praticam o bem e nos são agradáveis. E realmente essas pessoas são um sinal da presença e da ação de Cristo no mundo, Cristo realmente age nelas e através delas. O bem que essas pessoas praticam nos edifica e nos ajuda a crescer na Fé.
Mas no Evangelho de hoje Jesus lança um desafio à nossa Fé e nos convida a "avançar para águas mais profundas", a crescer na Fé, e a ver Seu rosto no rosto daqueles que não nos são simpáticos, daqueles que nos são desagradáveis, até mesmo daqueles que nos fazem o mal: criminosos na prisão, "estrangeiros", ou seja, pessoas desconhecidas, que não fazem parte da minha vida, do meu ciclo familiar e de amigos, pessoas com quem não temos laço algum de afetividade ou simpatia, etc.
Esta atitude é um desafio para nossa Fé e pede de nós uma grande conversão do coração. Nós só conseguiremos amar e ver Jesus no rosto dos outros se nos exercitarmos no amor a Jesus.
São Bernardo dizia que "o amor ao próximo começa com o amor a Deus"; para que o meu amor ao próximo cresça em meu coração é necessário que exista uma motivação, uma razão maior para que eu o ame, é necessário que eu o ame por causa de um amor maior, um amor que me leve a superar as barreiras que minha humanidade coloca. E este amor maior é o amor a Jesus.
Quem ama a Jesus terá forças para amar e ver Jesus naqueles que não são agradáveis, naqueles que não "transparecem" o rosto de Cristo e que não são um "sinal visível" do amor de Deus, como são, por exemplo, os presidiários que cometeram crimes hediondos e que se encontram nos presídios: "Estive preso e fostes ME visitar".
Lembremo-nos de que AMAR, no Evangelho, não significa necessariamente "ter sentimentos afetuosos" para com alguém; significa sim AGIR pelo bem da pessoa, através de gestos concretos, dentre esses gestos, o maior e mais eficaz é a oração.
O que Jesus nos pede é que nós não identifiquemos o outro pelo mal que ele pratica ou praticou; identificar o outro pelo mal que ele cometeu é matar a verdadeira identidade dele, pois é identifica-lo com aquilo que há de falso nele, com seu pecado, e não com a verdade dele.
A verdadeira identidade do outro é a mesma identidade minha: ele é um filho de Deus, alguém amado, alguém por quem Jesus derramou até a última gota de seu sangue. Devemos ver os outros com os olhos de Deus e não com os nossos olhos e parâmetros humanos.
Quando amamos a Jesus, quando tomamos consciência de que Ele está Vivo, Ressuscitado, participando de nossas vidas, então somos capazes de olhar o outro através de Jesus, olhar como Jesus olhou, e servir Jesus que se apresenta no rosto de cada pessoa que se aproxima de mim.
Isto não é algo natural em nós: é necessário crescer no amor de Cristo para vivermos isto. E só crescemos no amor de Cristo através dos Sacramentos – Confissão e Eucaristia – e através da Oração fiel, constante e diária.
"No final de nossas vidas seremos julgados pelo amor que vivemos", dizia S. João da Cruz. O amor que vivemos nesta vida tem sua origem no amor de Cristo: quanto mais amamos a Cristo mais o Amor Dele, ou seja, o Espírito Santo, toma conta de nosso coração e o torna semelhante ao Coração de Jesus.
Segunda-feira da 1ª semana da Quaresma — Ano A
Leituras: Lv 19,1-2.11-18; Mt 25,31-46
"VIVER É CRISTO"
Ir. Bonifácio OSB
