Este não é o carpinteiro, o filho de Maria?

Esta pergunta dos habitantes de Nazaré exprime uma das grandes dificuldades no caminho de fé: a simplicidade de Deus!
Sim, Deus é muito simples para nós! Procuramos e esperamos muitas vezes um Deus de acordo com nossa imaginação e fantasia. Esperamos um Deus "super-herói" que realize prodígios, vença os males do mundo, nos conceda tudo o que pedimos e tenha o poder de criar um mundo perfeito, sem males, sem miséria, sem doenças, uma sociedade justa que viva na paz e na prosperidade material.
E o que aparece? O "filho da Maria"! Um operário, numa cidadezinha do interior, um homem igual a todo mundo, pacífico, manso, pobre, sem poder para esmagar uma mosca. Um homem que sofre, que passa fome, que não obriga nada a ninguém, mas só convida, propõe, esperando uma resposta livre de amor e de Fé.
Esperamos um Deus superpoderoso e vem um Crucificado. Alguém que não soluciona a pobreza mas torna-se pobre junto com os pobres; alguém que não tira todos os sofrimentos do mundo, mas sofre junto com os que sofrem; alguém que não cumula de bens e riquezas toda a humanidade, mas trabalha junto com os trabalhadores; alguém que não propõe guerras, mas propõe a outra face àqueles que o ferem; e finalmente, alguém que não soluciona o problema da morte física, mas morre numa Cruz, como todos os mortais.
Sim, este é o nosso Deus: É UM DE NÓS! O filho da Maria; como tantos outros filhos de "Marias" que existem em nossas cidades, comunidades e bairros.
Em Jesus Deus manifesta-se de maneira simples e pequena. Geralmente as pessoas que não querem crer em Deus tropeçam justamente no problema desta simplicidade divina: querem um Deus todo poderoso e encontram um "menino deitado numa manjedoura, um criminoso condenado numa Cruz".
E, no entanto, Jesus é o Deus todo poderoso sim, o Criador do Céu e da Terra, o Deus infinitamente Santo, que vence o mal e a morte, o único capaz de salvar o homem. Mas só pode ver esta identidade divina de Jesus quem é humilde e tem Fé. A falta de Fé e de Humildade impede a ação de Deus e torna a pessoa incapaz de ver a presença de Deus.
Nosso Deus, Jesus, partilha da simplicidade de nossas vidas. Ele está Vivo, Ressuscitado, presente em nossas vidas, pisando no nosso chão, comendo nosso arroz com feijão, participando de nossas alegrias, sofrimentos e esperanças. Ele é o Emanuel, o Deus- conosco.
Quando descobrimos a presença e a manifestação de Deus na simplicidade da existência humana, então tudo se transforma. O mundo, a vida, torna-se uma grande manifestação de Deus, e nós não enxergamos mais as coisas da mesma maneira.
Tudo se torna manifestação de Deus: a luz do sol, o batimento de nosso coração, os prazeres simples e pequenos da vida, o sorriso de uma criança, a presença das pessoas que amamos, etc.
Quando vemos a presença de Deus na simplicidade de nossa vida, ela se torna um Evangelho vivo pois tudo o que acontece é manifestação de Deus, é presença Dele, de Seu amor.
E até mesmo no sofrimento seremos capazes de ver a presença e a força do Amor de Deus que se manifesta. Deus escolhe o que é fraco e pobre, o que é pequeno e sem valor aos olhos do mundo, para manifestar-Se. Desta maneira Ele confunde os poderosos, os orgulhosos e não permite que nenhuma criatura se glorie diante Dele.
A graça de ver Deus é dada aos pequenos e humildes, aos simples, aos que têm Fé. Sejamos homens e mulheres de Fé e de Humildade, tenhamos este "olhar de criança" capaz de admirar-se com as coisas simples de nosso dia a dia, que muitas vezes passam despercebidas, mas é justamente nelas que Deus manifesta Seu poder e Sua glória.
Só a pessoa de fé simples e humilde pode ver no "filho da Maria" o Filho do Deus todo poderoso!
Quarta-feira da 4ª semana do Tempo Comum — Ano A
Leituras: 2Sm 24,2.9-17; Mc 6,1-6.
"VIVER É CRISTO"
Ir. Bonifácio OSB
