E o verbo se fez carne, e habitou entre nós

A comemoração cívica do ano novo é tradicionalmente um momento festivo, no qual as pessoas fazem novos projetos; é uma época em que um sentimento de esperança e alegria paira no ar e parece tomar conta do coração de todos.

Ao redor de nós, na sociedade, entre nossos amigos e em nossas famílias, várias são as manifestações de alegria – às vezes mesmo um pouco exageradas – que circundam esta data.

Se pararmos para analisar o que significa esta data, ou o que comemoramos, nos damos conta de que se trata de festejar o curso cronológico da história, o correr do tempo diante dos nossos olhos.

Assim sendo, para os que creem em Deus, como nós, é ocasião propícia de agradecer todo o bem recebido no ano que finda e consagrar as primícias do vindouro à proteção divina. O sentimento de ação de graças deve ser a primeira manifestação em nossos corações neste dia.

No entanto, para nós, cristãos, a este sentimento de ação de graças deveríamos acrescentar a reflexão do que vem a ser o sentido de nossa comemoração. Pois, se ficarmos na superfície de tal evento, corremos o risco de deixar passar despercebida a realidade mais profunda da história e do tempo. Corremos o risco de ficar na casca, no verniz, que a balbúrdia das festas tendem a criar para amenizar (ou até mesmo anestesiar) a realidade do mistério da vida, do tempo que passa.

E além do mais, se não procurarmos ir além do que a folia consumista das comemorações nos propõe, a História (nossa História!) corre o risco de tornar-se um trem desenfreado que corre em linha reta, passando de ano a ano, de réveillon a réveillon, sem saber exatamente para onde vai.

Nós cristãos temos a graça de poder dar um sentido ao desenrolar da História e do tempo, dando, consequentemente, sentido a nossas vidas. Há uma semana comemoramos o Natal do Senhor, celebração do mistério inefável de nossa fé, no qual Deus entra no curso da História humana e começa a fazer parte de nosso tempo e de nossa cronologia: "O Verbo se fez carne e veio habitar entre nós".

A encarnação do Verbo é uma erupção da vida e do mistério do próprio Deus em nossa vida e em nossa História. Assumindo a totalidade de nossa realidade humana, o Verbo faz de nossa História, de nosso tempo, de nossa cronologia, o lugar de sua Economia, o lugar único e privilegiado da realização do seu plano de Amor.

Portanto, assim como nossa natureza assumida pelo Verbo é elevada à participação do mistério da vida de Deus, assim também a História e o tempo, recebendo o evento da encarnação do Verbo, assumem o estatuto teológico de "Kairos", isto é, de tempo favorável de realização do plano de Deus.

Pelo mistério de Cristo, a tangente da História ganha nova forma, deixando de ser uma sucessão linear de fatos cronológicos no tempo para tornar-se um ciclo cujo ponto inicial e final, o Alfa e o Ômega, é a própria Pessoa do Verbo encarnado, que faz o tempo dos homens entrar na realidade imutável do tempo de Deus.

Este mistério da teologia da História, que a Igreja vive na celebração do ano litúrgico, é a chave do mistério do homem e da sua história que só se tornam verdadeiramente claros no mistério do Verbo encarnado (LG 22). Em Cristo, Deus estabelece um novo tempo, uma nova História; ao se fazer carne, o Verbo "faz novas todas as coisas".

Sim, Cristo faz novas todas as coisas porque Ele é o Novo Tempo estabelecido por Deus, o "kairos" por excelência. Cristo é o verdadeiro Ano Novo! É neste Ano Novo que somos chamados a viver, é este Ano Novo que comemoramos hoje.

Entremos cada vez mais no Mistério de Cristo para podermos entrar no verdadeiro Ano Novo, na verdadeira novidade do Tempo Novo que só pode existir em Cristo. Unamo-nos a Ele e tomemos a decisão de ter atitudes concretas para nos unir cada vez mais a Cristo no novo ano civil que se inicia.

Quando estamos em Cristo nosso tempo não passa de um ano velho para um ano novo deixando-nos mais velhos! Quando estamos em Cristo passamos sempre de uma condição velha, de um tempo velho para o tempo novo, que faz de nós homens novos, novas criaturas, crescendo sempre mais em força e santidade diante de Deus em Cristo.

Que Cristo seja o verdadeiro Ano Novo a todos vocês. É este Ano Novo que eu desejo a todos vocês, queridos irmãos e irmãs!

FELIZ CRISTO, VERDADEIRO ANO NOVO, NA VIDA DE VOCÊS E DE SUAS FAMÍLIAS!"

7º dia da Oitava de Natal - Ano A

Leituras: 1Jo 2, 18-21; Jo 1, 1-18.

"VIVER É CRISTO"

Ir. Bonifácio OSB