A língua de Santo Antônio

A língua do santo que tinha proclamado com tanta eloquência a Palavra de Deus foi encontrada perfeitamente intacta.
Embora tenha nascido na cidade de Lisboa, em Portugal, Santo Antônio é normalmente referido com o nome do local em que morreu, a cidade de Pádua (Padova), na região nordeste da Itália. A sua morte se deu a 13 de junho de 1231, quando o santo contava com apenas 36 anos de idade.
Foi tão grande o luto que se mostrou por ocasião de seu falecimento, e tantos os milagres realizados, que o processo eclesiástico para verificar a sua santidade não chegou a durar sequer um ano:
Santo Antônio de Pádua foi canonizado em 1232, por Gregório IX, o mesmo papa que o viu pregar em 1228 e que tinha lhe chamado de "Arca do Testamento" e "Armadura das Sagradas Escrituras", pelo conhecimento notável que exibia das Sagradas Escrituras e também conhecido como "Martelo dos Hereges" devido sua eloquência na pregação, onde confundia aqueles que anunciavam inverdades de fé.
Nesse mesmo ano, os confrades do santo, ajudados pelos moradores de Pádua, começaram a erigir uma basílica em sua honra. Em 1263, seu corpo foi transferido para o lugar, na presença de São Boaventura, então superior dos franciscanos. Quando o sarcófago foi aberto, a língua do santo que tinha proclamado com tanta eloquência a Palavra de Deus foi encontrada perfeitamente intacta:
"Nessa altura, uma personalidade tão venerável como São Boaventura [...] com todo o respeito pegou na língua do Santo em suas mãos, e comovido até às lágrimas, na presença de todos os circunstantes, dirigiu-se a essa relíquia com toda a devoção nestes termos: 'Ó língua bendita, que sempre glorificaste o Senhor e levaste os outros a glorificá-lo, agora nos é permitido avaliar como foram grandes os teus méritos perante Deus!' E beijando-a com ternura e piedade, determinou que fosse conservada à parte, com todas as honras, como era justo e conveniente."
A língua do grande pregador foi então colocada em um relicário dourado, de onde até os dias de hoje recebe a veneração de inúmeros devotos e peregrinos.
O corpo de Santo Antônio foi exumado ainda duas outras vezes: em 1350, quando o seu queixo e vários de seus ossos foram colocados em relicários próprios; e em 1981, por ordem do Papa São João Paulo II, quando se descobriram incorruptas também as suas cordas vocais.
Mesmo reunindo em um só lugar uma multidão de 30 mil pessoas, "nem sequer se ouvia um sinal de clamor ou murmúrio" enquanto Santo Antônio falava, sem microfones ou caixas de som!
A incorrupção dessas duas partes de seu corpo não deixa dúvidas sobre qual era a maior virtude de Santo Antônio: a Pregação da Palavra.
Mais importante do que isso, as palavras do frade realizavam na vida das pessoas o maior de todos os milagres, que é a conversão de coração. Depois que escutavam a sua pregação, eram tantos os homens e mulheres que corriam para o confessionário, que faltavam sacerdotes para atender tanta gente.
É isto o que se pode dizer, em resumo, da língua de Santo Antônio de Pádua: que operou milagres muito maiores que todos os outros que ele fez, seja em vida, seja depois de sua morte. Antônio, por certo, não pode ser tido como um santo "discreto": foi ele um verdadeiro taumaturgo, a ponto de haver nos livros relacionados à sua vida uma obra dedicada tão somente à narração de seus milagres. Mesmo assim, foram a sua língua e as suas cordas vocais, entre todos os membros de seu corpo, que experimentaram a incorrupção.
Com isso, Deus quer nos mostrar que, muito mais do que multiplicar pães, curar enfermos e ressuscitar defuntos, a grande obra dos santos, como Santo Antônio, é espiritual: levar as pessoas à conversão e à mudança de vida.
Fica para todos os devotos de Santo Antônio, portanto, esta importante lição deixada pelo próprio Cristo:
"Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas as coisas vos serão dadas em acréscimo" ( Mt 6, 33).
Pelo fato de Santo Antônio estar ricamente ornado pela Sagrada Escritura, por sua sólida formação teológica e doutrinal, São Francisco de Assis dá-lhe um título inusitado chamando-o de "episcopo meo" (= meu bispo). Sabemos que Frei Antônio jamais recebera uma mitra episcopal. Este título, São Francisco lhe dá para exprimir sua profunda veneração pelos verdadeiros teólogos e pregadores, enquanto dispensadores da Palavra de Deus.
Em nossas orações a este grande Santo e Doutor da Igreja, peçamos o que verdadeiramente nos convém, entregando a Deus a decisão última de tudo.
O que precisa ser virada de ponta-cabeça não é a imagem de Santo Antônio, mas a nossa vida, para agradar a Deus!
Santo Antônio de Lisboa e de Pádua, rogai por nós!
